Maria de Deus e do seu povo… Maria da gente

Maria de Deus e do seu povo… Maria da gente

“Deus benigníssimo e sapientíssimo, querendo realizar a redenção do mundo, ‘quando veio a plenitude do tempo, enviou seu Filho, feito da mulher, … para que recebêssemos a adoção de filhos’ (Gl 4,4-5). ‘O qual, por amor de nós homens, e para a nossa salvação desdeu dos céus e se encarnou, por obra do Espírito Santo, de Maria Virgem (Symbolum Constantinopolitanum). Este mistério divino de salvação se nos revela e perpetua na Igreja que o Senhor constitui como seu Corpo. Unidos a Cristo como Cabeça e em comunhão com todos os seus Santos, os fieis devem venerar também a memória ‘primeiramente da gloriosa sempre Virgem Maria, Mãe de Deus e de nosso Senhor Jesus Cristo’ (Missal Romano)”.

O proêmio do Capítulo VIII da Constituição Dogmática Lumen Gentium, citado acima, recorda a singular figura de Maria no interior da história da salvação. O faz citando o texto de Gl 4,4-5, possivelmente o primeiro texto neo-testamentário a se referir a Maria de Nazaré. Neste texto, especificamente na expressão “nascido de mulher”, Paulo procura chancelar a concretude da Encarnação, ou seja, afirmar que Jesus assumiu a condição humana na sua totalidade. O que se ressalta é que o Filho de Deus assume a natureza humana para nos libertar da lei (visto que o debate que Paulo está debatendo com os judaizantes que auguram a salvação pelas obras da lei). O eixo do texto é, portanto, cristológico.

Convém sublinhar que o texto de Gálatas inicia com o termo grego “plerwma”, demarcando que havia chegado a “plenitude” do tempo. Esse termo (plerwma) parece significar um momento ímpar em que a história se completa e se enche de sentido; não é que a história  tenha chegado ao fim, mas trata-se de um momento em que a história transcende a si mesma. Essa plenitude é aquele Kairoz de Deus que transcende o tempo, uma novidade trazida por Deus a cada homem e a cada mulher de cada lugar: o transbordamento da própria história. Designa, da mesma forma, a chegada dos tempos messiânicos, do tempo escatológico que traz à história uma medida finalmente plena. E esse tempo é a chegada do Filho de Deus (“Igioz tou qeou”).

O título “Filho de Deus”, por sua vez, indica a identidade última de Jesus, ou seja, põe em relevo sua singular relação com Deus e sua mediação salvadora. No ato da encarnação, o Filho, ao assumir a natureza humana em sua totalidade, também nos fez participantes de sua filiação divina, uma filiação adotiva. É a encarnação, portanto, na sua concretude de quem “nasce de mulher”, que nos proporciona a adoção filial, de forma que, neste sentido, nos tornamos “filhos no Filho”. Quanto à “mulher”, “nada permite supor que São Paulo atribua um papel pessoal a Maria na filiação adotiva. O que ele nos diz reduz-se ao seguinte: uma mulher assegurou a entrada do Cristo na raça humana, quando chegou a plenitude dos tempos“.[1]

Clodovis Boff, no entanto, ao comentar o texto de Gálatas em perspectiva mariológica, assim se expressa:

“No arco da História da Salvação, Maria se situa precisamente no tempo do pléroma (plenitude). Seu lugar é, pois, no “centro escatológico” (definitivo) da história. Ela está estreitamente relacionada com o Filho e com seu “envio”. Aqui a mariologia aparece como absolutamente cristocêntrica. O Filho de Deus torna-se filho de Maria. Ela serve de caminho para a vinda de Deus até nós em seu Filho. É Maria que possibilita a adoção filial, conceito exclusivo de Paulo (cf. Rm 8,15.23; 9,4; Ef 1,45). Assim, o Filho, que “nasce sob a Lei para redimir da lei”, faz-se igualmente “filho de uma mulher”, com o fim de fazer todo ser humano “filho de Deus”. Assim, essa Mulher é também o caminho pelo qual vamos a Deus.[2]

A citação do texto de Gálatas ao início do Proêmio da Lumen Gentium, assim, põe em relação estreita a figura de Maria com o contexto da história salvífica, ou seja, quis referir-se a uma mariologia “germinal” (primordial) e profundamente cristológica. A afirmação teológica subjacente é a de que para salvar-nos Deus se utilizou, em sua bondade, de Maria de Nazaré para que a Encarnação pudesse acontecer. Ela tornou-se o modo, o “caminho” pelo qual Deus veio até nós e, por isso, é modo e “caminho” de irmos até Deus, parafraseando Boff.

Maria, como figura de singular importância na história da salvação – caminho pelo qual o Verbo fez-se carne e veio habitar entre nós – está, no entanto, inserida no seio da Igreja. Na verdade, como todos os mistérios da salvação se contemplam na Igreja, Maria nela têm seu espaço, seu lugar, como membro eminente.

Este debate que aludimos, da ligação entre os tratados sobre a Igreja e sobre Maria, teve seu espaço no Concílio Vaticano II. Alguns padres conciliares propunham um breve tratado sobre a Virgem Maria, separado do tratado sobre a Igreja. Um deles foi o Cardeal Ottaviani, responsável na época pela Congregação do Santo Ofício. Contudo, mesmo com essa proposta oriunda de um membro assim tão insigne do Concílio, “a muitos padres pareceu estranho que se discutisse esse assunto independentemente da temática sobre a Igreja, pois esse era o consenso natural no qual Maria devia encontrar a sua colocação teológica, ou seja, no seio do mistério do povo de Deus”.[3] E assim foi decidido pelos padres conciliares a 29 de outubro de 1963, aceitando a proposta do Cardeal Suenens: o esquema sobre Maria devia ser incluído no De Ecclesia (o que, posteriormente, se tornou a Lumen Gentium), como último capítulo. Então, teologicamente Maria aparece, determinantemente, no Vaticano II, como inseparável d mistério da Igreja e ao, mesmo tempo, “figura da Igreja”.[4]

Assim, desde a eclesiologia tornada oficial no Vaticano II, concebemos a Virgem Maria no seio da Igreja, “unida à Igreja, pelo dom e cargo da maternidade divina, que a une com seu Filho redentor, e ainda pelas suas graças e prerrogativas singulares”.[5] Maria é mãe “tipo” da Igreja, modelo de perfeita união a Cristo, como quer estar a Igreja em todos os tempos. Conforme Almeida, “o seu ser mãe – objeto do nº 63 da Lumen Gentium, que apresenta Maria à luz do mistério da Igreja – visto em profundidade, é a total gratuidade do seu dar-se, em correspondência de amor ao Amor”.[6]

A referência de Maria como membro eminente da Igreja, como aquela da qual Deus se utilizou para vir até nós, no entanto, não exclui considerar sua humanidade e, por vezes, sua insegurança. Basta observar, por exemplo, o texto da Anunciação (Lc 1,26-38) e perceber a sua reação diante do mistério excelso que nela se daria. Sobre isto assinala Ratzinger que “a primeira reação à saudação do anjo é feita de perturbação e ponderação. […] Mas o que se segue depois não é o temor, mas uma reflexão íntima sobre a saudação do anjo. Maria reflete (entra em diálogo consigo mesma) sobre o que possa significar a saudação do mensageiro de Deus”.[7] Ela confronta-se, humanamente, com a Palavra e adere à Palavra e à vontade de Deus.

Enfim, a figura de Maria revela a disponibilidade e a autenticidade de alguém que quis deixar-se guiar pela vontade e pelo desígnio de Deus. O fez de tal forma que Deus tornou-a membro eminente da Igreja, corpo de Cristo. O fez de tal forma que sua participação singular na Encarnação do Verbo deu definitiva “entrada” à presença de Deus no horizonte humano. E por esta Encarnação veio a nós a salvação de Deus, ou seja, através dela o Salvador pôde salvar-nos.

De uma maneira simples e perene, Maria continua sendo ícone da Igreja que, como povo de Deus, deve constantemente estar unida a Cristo. Não há, portanto, nenhum tipo de devoção mariana que não esteja direcionada a Cristo, que não esteja no seio da Igreja e nunca separada dela. É no horizonte da Igreja que encontramos a “mulher Maria” que nos inspira e nos indica o modo de agradar a Deus que grandes coisas pode realizar em nós, seu povo.

É possível, desta forma, vislumbrar Maria – tão humana – em sua colaboração no plano salvífico de Deus, em sua união íntima a Cristo e como modelo para toda a Igreja. Assim buscamos contemplá-la e compreendê-la. Entretanto, é mister que nela cada cristão espelhe-se para colaborar na construção do Reino de Deus, que é salvação de Deus para todos no hoje da história. É possível conceber que a união a Cristo é foi o quem manteve Maria firme e é o que mantém a Igreja em sua missão; que faz a Igreja ser um empreendimento que transcende a si mesmo. Com os olhos fixos em Jesus, é possível entrever em Maria o nosso próprio processo humano: um caminho sem fim de transcender os nossos egoísmos e colocar-nos à disposição dos desígnios de Deus.

[1] René LAURENTIN, Breve tratado de teologia mariana, Petrópolis: Vozes, 1965, p. 20.

[2] Clodovis BOFF, Introdução à mariologia, Petrópolis: Vozes, 2012, p. 39-40.

[3] Giuseppe ALBERIGO, O Concílio Vaticano II, In. ALBERIGO, G. (org.), História dos Concílios Ecumênicos, São Paulo: Paulus, 1995, p. 404.

[4] Id., p. 413.

[5] Lumen Gentium (LG), 63.

[6] Antonio José de ALMEIDA, Lumen Gentium: a transição necessária, São Paulo: Paulus, 2005, p. 223.

[7] Joseph RATZINGER, A infância de Jesus, São Paulo: Planeta, 2012, p. 35.

                                                                   AUTOR: Fr. Josimar Baggio, scj.

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