A Inspiração do Espírito na vida dehoniana

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14.03.2026 - 23:53:00 | 11 minutos de leitura

A Inspiração do Espírito na vida dehoniana

Em nossa vida, precisamos respirar constantemente. Se parássemos, certamente não permaneceríamos vivos por muito tempo. Algo semelhante acontece na vida espiritual: também nela é necessário respirar, ou melhor, inspirar o Espírito que Deus sopra em nossas narinas e, assim, cada um de nós torna-se um ser vivente (cf. Gn 2,7).

No contexto do Jubileu Dehoniano em Quito, no Equador, e da memória dos 183 anos do nascimento de Padre Dehon, somos interpelados a recordar a inspiração que ele teve ao fundar nossa Congregação. É essa mesma inspiração que nos conduz a trilhar o caminho dehoniano. Ela levou também o nosso Pai Fundador a uma vida de virtudes heroicas e a uma intensa luta pela fundação e consolidação da Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus. Daí a importância de celebrarmos este dia e voltarmos nossa atenção para aquilo que Padre Dehon, como Pai Fundador, nos ensina.

Na Bíblia, a palavra “espírito”, traduzida do grego pneuma, significa também “sopro” ou “vento”. Essa palavra está ligada à ideia de respiração e remete igualmente à dimensão imaterial do ser humano, que o torna capaz de responder a Deus.¹

O Espírito Santo, assim, concede a cada fiel da Igreja a Vida que dá a ele a capacidade de corresponder ao imenso amor do Pai, por meio de Cristo Jesus, que se entregou e morreu por cada um de nós (cf. Gl 2,20). Por isso, ele é chamado de Espírito que dá a Vida, e essa é a Vida verdadeira, a Vida no Autor da vida. E, portanto, Ele é quem dá a vida para toda a Igreja, e toda a Igreja tem sua inspiração de ser Igreja no Espírito Santo. Não há, portanto, Igreja sem vida, e não há vida em Cristo sem Igreja.²

O mesmo Espírito suscita, para a ação evangelizadora da Igreja, homens e mulheres capazes de inspirar esse sopro de vida e deixá-lo produzir os seus frutos. Esses homens e mulheres, que caminham durante sua vida na Terra em busca da santidade pessoal, também levam outros a trilharem esse caminho. Porque a santidade de vida leva o santo ao céu e uma multidão junto com ele. Para tanto, fundaram ordens, congregações, institutos de fraternidade e estipularam uma regra para que cada vocacionado à sua fundação a seguisse e não errasse esse maravilhoso caminho que nos leva ao Pai.

O mesmo aconteceu com Padre Dehon, que fundou a Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus. Ele tinha olhos e ouvidos bem atentos ao que o Senhor lhe falava e às necessidades de seu tempo.

Padre Dehon nasceu em 14 de março de 1843, em La Capelle, na França. Desde cedo manifestou profunda sensibilidade espiritual e atenção às realidades humanas e sociais do seu tempo. Sua vida sacerdotal desenvolveu-se em um contexto marcado por transformações sociais, especialmente ligadas ao mundo do trabalho e às novas questões sociais do século XIX. Nesse ambiente, ele procurou responder com uma espiritualidade profundamente centrada no Coração de Cristo.

Em determinado momento de sua história, respirando já uma espiritualidade própria, teve a inspiração de fundar uma congregação de padres religiosos. Essa congregação inicialmente foi chamada de Congregação dos Oblatos do Coração de Jesus. Pois Padre Dehon via a necessidade de realizar uma obra que não abandonasse o Senhor no sacrário, mas estivesse presente com Ele em adoração reparadora e pudesse ver e agir na sociedade para construir o Reino do Coração de Jesus, expressão inspirada na oração do Pai-Nosso: “Adveniat Regnum Tuum”, “Venha a nós o vosso Reino”.

Posteriormente, a congregação foi fechada pela Santa Sé, devido a calúnias feitas contra sua pessoa e a Congregação. Dehon sofre com essa decisão e a chama de Consummatum est, associando-a ao “Tudo está consumado” (Jo 19,30) que Jesus pronuncia na cruz antes de entregar seu espírito. Do mesmo modo, Padre Dehon entregou seu espírito e, com ele, sua vontade à vontade do Pai. Mas, com a graça de Deus e uma obediência heroica, a Congregação ressurge com o nome que temos hoje: Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus.

Nesse cenário, percebe-se que a inspiração dada a Padre Dehon pelo Espírito levou a Congregação e o sonho da vida de seu fundador a um calvário e ao sepulcro, do qual ressuscitou.

E não deve ser estranho a um dehoniano que lhe seja pedido “entregar o espírito”, para depois ressuscitar com Cristo; pois, se essa inspiração levou Padre Dehon a, de certo modo, viver isso, assim também, de certo modo, acontecerá com o dehoniano que inspira dessa mesma inspiração.

Isso acontece porque, desde o início da caminhada vocacional, cada dehoniano respira o mesmo ar, buscando efetuar sua vocação com a mesma inspiração que inspirou Padre Dehon. Em todos os anos da formação inicial, o vocacionado passa a inspirar-se e deixar-se tocar pelo Espírito Santo, que suscita vocações na Igreja e que leva cada uma delas onde Ele quer. Esse Espírito já tem soprado em cada vocacionado dehoniano esse sopro do qual Padre Dehon também inspirou, desde o primeiro momento em que ele foi chamado a ser dehoniano. Porém, embrionariamente; ainda como uma pequena chama que crescerá e tornar-se-á a chama da oblação viva elevada ao Pai por Cristo Jesus.

Do mesmo modo, os religiosos dehonianos, que bebem da mesma espiritualidade e carisma de Padre Dehon, não devem esquecer-se da inspiração de Padre Dehon, mas recordá-la, amá-la e vivê-la, para permanecerem no Espírito que move a Igreja. Porque é Ele que suscita toda e qualquer inspiração nela e foi Ele quem chamou os vocacionados e os religiosos desta Congregação.

Por isso, para cada vocacionado e cada religioso de nossa Congregação, urge a necessidade de nutrirmo-nos dessa inspiração, de deixar o Espírito falar em nós a partir do legado espiritual que Padre Dehon nos deixou. Sejamos unidos ao seu ideal e ao seu caminho de santidade, trilhando nosso próprio caminho dentro da inspiração da Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus.

In Corde Iesu.

¹ Cf. BIBLESOFT. Thayer's greek lexicon. Disponível em: https://biblehub.com/strongs/greek/4151.htm. Acesso em: 14 mar. 2026. [tradução nossa]

² Cf. RICARDO, Paulo. Novena de pentecostes: o Espírito Santo dá a vida à Igreja. Disponível em: https://padrepauloricardo.org/episodios/o-espirito-santo-da-vida-a-igreja. Acesso em 14 mar. 2026.

Fonte: Fr. Alexandre Johann
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