Entrevista com o Diácono Leonardo Jacomelli, SCJ, da Província BRM

Em comemoração ao dia de São Lorenço, pela passagem do dia do diácono, entrevistamos nosso diácono, enquanto ele se prepara para receber o segundo grau do sacramento da ordem, o presbiterado, para conhecê-lo mais de perto e partilhar com você um pouco de sua história, sua vocação e os anseios que marcam este momento tão especial de sua caminhada.

Notícias

06.08.2025 - 17:13:00 | 16 minutos de leitura

Entrevista com o Diácono Leonardo Jacomelli, SCJ, da Província BRM

Tudo começou com um chamado discreto...

1. Como foi sua infância e sua vivência de fé na família? Há algum momento ou experiência que você percebe hoje como um primeiro sopro vocacional?

Minha família é de Ituporanga (SC), pertencemos a Paróquia Santo Estevão, atendida pela Ordem Franciscana, na diocese de Rio do Sul. Sou o filho caçula nascido dez anos depois da minha irmã Priscila. Em minha infância, a vivência da fé em nossa casa sempre foi presente, na participação das missas, na ajuda com a festa do padroeiro, na participação dos Grupos Bíblicos de Reflexão, no Movimento do Cursilho, etc. Assim cresci até chegar o tempo da catequese, na época a catequese familiar. 

Durante o tempo da catequese, especialmente para o Crisma, sempre ouvia a catequista falando o quanto faltavam novos catequistas e ela nos animava a ajudar. Assim, após receber o Crisma me coloquei à disposição, aos 15 anos, para ajudar na catequese. Concomitante a isso, fui convidado a participar de uma excursão da paróquia para o PHN, na Canção Nova, em meados de 2011. A partir disso, além da catequese, agora participava do Grupo de Oração “Vem e Segue-me” e, aos finais de semana, de diversos encontros, congressos, conferências, retiros etc. Proximamente a JMJ Rio2013, formamos na paróquia o grupo de Jovens Ágape e a Coordenação Paroquial da Juventude (CPJ). 

Diante de toda essa vivência eu percebo que o Senhor foi muito sutil comigo. Nestas experiências Ele foi mostrando sinais, respondendo orações, cativando o meu coração aos poucos. Mas as provocações Dele, para o Seu seguimento, sempre estiveram presentes.

Sentir-se chamado é diferente de saber o caminho...

2. Como surgiu a decisão de seguir a vocação sacerdotal e por que escolheu a Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus?

No envolvimento com as diversas atividades na paróquia, nos retiros, nos momentos de oração era comum sentir no coração o chamado. Além disso, não foram poucas as pessoas usadas por Deus, na Igreja, para me provocar e chamar a esta possibilidade. Porém, me inquietava muito a necessidade de deixar a família para assumir tão grande missão. Outra coisa que me impediu de aceitar o convite do Senhor em um primeiro momento, foi a pressão e o julgamento de uma sociedade secular que não considera esse estado de vida como uma opção razoável e até menospreza tal vocação. Tanto que, ao concluir o ensino médio, fui cursar arquitetura e urbanismo na FURB, em Blumenau.

O Senhor, porém, tem seus caminhos e não desiste daqueles que escolheu. Enquanto cursava a graduação na FURB, no ano de 2013, a Igreja Católica no Brasil vivia um momento ímpar, a Jornada Mundial da Juventude, com a participação do recém-eleito Papa Francisco. Com isso, fui convidado a participar de uma excursão da RCC da Catedral de Rio do Sul e com meu cunhado e muitos amigos fomos viver esse momento marcante para nossas vidas e para toda a Igreja. Lá, vivi uma grande experiência de Igreja, unido aos 4 milhões de pessoas presentes; aos diversos sacerdotes, bispos e cardeais, religiosos e religiosos, consagrados, grupos e movimentos; e uma forte experiência com Deus que me chamava “a anunciar para o mundo ouvir que Cristo é nosso Salvador”. Bateram fortes no meu coração as palavras do Papa Francisco, que refletia o tema daquela jornada: “Ide e fazei discípulos meus entre todas as nações” (Mt 28, 19-20). Ao voltar, eu não podia conter em mim essa experiência de Igreja e de Deus que eu experimentei e precisava tomar uma decisão que implicaria toda a minha vida nesta missão.

Foi assim que decidi discernir seriamente minha vocação. Deste modo, enquanto cursava o segundo semestre da faculdade, procurei o discernimento, pesquisei muito, rezei muito e, levado pelo desejo de evangelizar os jovens e cultivar uma espiritualidade eucarística, encontrei a congregação. Primeiramente, motivado pelo que via na evangelização realizada por padres desta congregação, como Padre Léo, Padre Zezinho, Padre Joãozinho e pelos religiosos Dehonianos que atendiam a Paróquia São Judas, em Rio do Sul. Meu primeiro contato vocacional foi no estágio que aconteceu dia 12 de outubro no Santuário SCJ, em Joinville. Ali, tive a confirmação que aquele era meu lugar, pois encontrei uma família religiosa com uma espiritualidade profunda, marcadamente eucarística; um carisma encantador e uma missão vivida na alegria e na acolhida.

O caminho da formação também é caminho de transformação...

3. Como foi sua caminhada de formação até o diaconato? Quais foram os maiores desafios e graças vividas nesse tempo de preparação?

No dia 16 de fevereiro de 2014 ingressei no Seminário São José, em Rio Negrinho, na etapa do propedêutico, com outros 9 colegas. Foi um ano de introdução à vida seminarística, na congregação e na vida religiosa, além da preparação para o curso de Filosofia que seria cursado no próximo ano.

Em 2015, parti para a próxima etapa, o discipulado, vivenciado no Convento Sagrado Coração de Jesus, em Brusque, onde cursei a filosofia num período de três anos. Destaco deste período o aprimoramento intelectual e a grande experiência pastoral. Trago comigo um grande carinho ao povo de Brusque que tão bem nos acolhe: o povo de Deus da Matriz São Luiz Gonzaga; da comunidade SCJ (Guarani); e do movimento campista. Formado na graduação de Filosofia, em 2018 parti para a próxima etapa, o Postulantado, que aconteceu em Barretos/SP, ano de aprimoramento dos aspectos humano-afetivos e do conhecimento do carisma em preparação à próxima etapa.

No postulantado, acontece algo que marca nossa formação, que é o encontro com os formandos das outras províncias brasileiras da nossa congregação. Neste ano, vivemos juntos momentos fortes de crescimento na vida comunitária e no carisma.

Em 2019 chego à etapa tão esperada, o Noviciado, no qual nos preparamos para professar os primeiros votos, tornando-se assim religiosos da congregação (fratres). O ano que vivemos no Noviciado Nossa Senhora de Fátima, em Jaraguá do Sul, é marcado pelo grande aprofundamento espiritual e carismático.  No dia 2 de fevereiro de 2020 professei os meus primeiros votos tornando-me religioso de votos simples e assumindo minha primeira missão na etapa pós-noviciado, que chamamos de Tirocínio, um estágio pastoral.

 Nesta etapa, retorno ao Seminário São José, agora como frater, ajudando na formação dos seminaristas. Em 2021, no meu segundo ano de Tirocínio, realizei uma experiência pastoral na Paróquia São Judas Tadeu, em Rio do Sul, onde pude desenvolver várias atividades pastorais na Paróquia e na Cúria Diocesana.

Depois disso, retomo os estudos e vou para Taubaté/SP, no Conventinho SCJ, na etapa da Configuração, onde curso Teologia, que tem a duração de quatro anos. Além disso, nesta etapa que estou, da Configuração com Cristo, buscamos, na vida comunitária, nas atividades pastorais e no aprimoramento pessoal, preparar-se mais intensamente para professar os votos perpétuos e assumir o ministério sacerdotal, completando assim, os 12 anos de formação inicial.

O diaconato como um tempo de serviço e amadurecimento...

4. Como está sendo viver esse tempo como diácono? Que aprendizados ou experiências mais marcaram seu coração nesse ministério que precede a ordenação sacerdotal?

A vivência do ministério diaconal tem sido um tempo especial, particularmente na ministração de bênçãos e na reflexão da Palavra de Deus. Ao mesmo tempo, vivo a expectativa de receber o segundo grau da Ordem, que já se aproxima rapidamente. O que tem marcado o meu ministério é a graça de ser um dispensador das bênçãos de Deus para as pessoas. E isso, desde o dia de minha ordenação diaconal, em que, extraordinariamente, após a missa, muitas pessoas pediram uma oração e uma bênção. Este fato se prolonga em meu serviço pastoral no Instituto Meninos de São Judas Tadeu, em São Paulo, onde minha principal tarefa é receber os benfeitores, amigos da Obra e visitantes, ministrando a bênção para eles, seus bens, objetos de devoção etc. Outra questão que me marca é perceber o tamanho da misericórdia e bondade de Deus em querer usar esse instrumento tão débil e frágil para o seu santo serviço, como escreve perfeitamente Paulo, “temos tesouro em vasos de barro” (2Cor 4,7).


Agora, prestes a ser padre...

5. O que significa para você receber o sacerdócio neste momento da vida e da história da Igreja? Quais os sentimentos que carregam seu coração diante desse grande passo?

É bem difícil descrever o que significa este momento, os sentimentos e as expectativas, junto ao senso de responsabilidade, que são muito intensos. No meu coração há um sentimento de muita gratidão por todo o processo vivido: esses 12 anos de formação inicial marcaram a minha história. Os desafios e as provações enfrentadas não foram poucas, porém, tenho a ciência que estes também foram eventos formativos para o meu sacerdócio. Junto a eles, houveram superabundantes momentos de graça, alegria e crescimento que me fazem o que sou hoje e o sacerdote que serei futuramente. Receber o sacerdócio hoje, num mundo marcado pelo individualismo, pela cultura do descartável, pelas incertezas da inteligência artificial e por uma sociedade polarizada, é um ato profundamente contracultural e profético. Isso ressoa em meu coração como um chamado a ser sinal de comunhão, de entrega e de esperança. Sinto o peso e a beleza de oferecer minha vida inteira como resposta ao Amor, sendo presença fiel de Cristo num tempo que clama por sentido, escuta e testemunho autêntico. É uma entrega que se faz na confiança que o Espírito me precede e sustenta.


Um agradecimento e um convite...

6. Para encerrarmos, que mensagem você gostaria de deixar para todos aqueles que o acompanharam até aqui: familiares, amigos, benfeitores e toda a comunidade? E como se unir a você neste momento tão importante da sua ordenação presbiteral?

Com o coração profundamente agradecido, dirijo-me a todos que fizeram parte do caminho que me conduziu até este momento tão especial da minha vida. Agradeço, de modo particular, à minha família que sempre foi meu primeiro lar de fé e amor; aos amigos que, com palavras e gestos, me sustentaram nas alegrias e nos desafios; aos benfeitores que, com generosidade, tornaram possível essa caminhada; aos formadores e professores que me ajudaram a discernir e amadurecer minha vocação; e a toda a comunidade que, com orações e testemunho, foi sinal da presença viva de Deus.

Cada um de vocês, com sua presença e carinho, contribuiu para que eu chegasse até aqui. Sou grato por tudo o que partilhamos ao longo desse tempo de formação religiosa e sacerdotal. Agora, às vésperas da ordenação sacerdotal, peço que continuem unidos a mim por meio da oração, para que este novo passo que darei na fé seja fecundo para a Igreja, para a Congregação e para o povo a quem serei enviado.

Com muita alegria, convido todos vocês para a celebração da minha Ordenação Sacerdotal que acontecerá no dia 13 de dezembro, às 19h, na Matriz Santo Estêvão, em Ituporanga/SC, e para a minha Primeira Missa, que será celebrada no dia 14 de dezembro, às 10h, também na Matriz Santo Estêvão.
Conto com a presença e oração de vocês. Unidos no Coração de Jesus.

Vivat Cor Iesu!

Fonte: Diác. Leonardo Jacomelli, SCJ
Mais Notícias