O Hoje Dehoniano
O “espírito” é aquilo que indica o mais profundo e decisivo da vida de uma pessoa: a paixão que a anima, a sua inspiração última, aquilo que nela contagia os outros. Designa tudo aquilo que de único e original cada pessoa coloca no mundo.É este “espírito” que dá ânimo aos nossos projetos e compromissos e forma à nossa esperança e horizonte de valores.
06.09.2017 - 00:00:00 | 8 minutos de leitura

O “espírito” é aquilo que indica o mais profundo e decisivo da vida de uma pessoa: a paixão que a anima, a sua inspiração última, aquilo que nela contagia os outros. Designa tudo aquilo que de único e original cada pessoa coloca no mundo.É este “espírito” que dá ânimo aos nossos projetos e compromissos e forma à nossa esperança e horizonte de valores.
Os valores espirituais são muito valiosos para os dehonianos, porque não vivemos amarrados a uma atividade apostólica determinada. É importante aquilo que fazemos, mas mais importante ainda é o modo como o realizamos. Perceber o viver dehoniano hoje passa por, a partir de uma maneira de ser e estar, remontar à profunda experiência espiritual, que está na génese e na base desse estilo de vida. Por isso, torna-se necessário procurar e pôr em evidência um conjunto de atitudes interiores típicas.
Os olhos abertos – Com o Padre Dehon, aprendemos a olhar o mundo à nossa volta, a ser capazes de reconhecer os dramas do homem contemporâneo, a estar atentos aos sinais dos tempos.
Esta abertura à permanente novidade do agir de Deus impede que nos acomodemos na rotina estéril ou adormeçamos em tradições ferrugentas. Esta vigilância evangélica abre os nossos olhos para acolhermos os desafios do nosso tempo e é ponto de partida para as respostas que somos chamados a dar.
A vida de oblação “torna-nos atentos aos apelos que o Pai nos dirige através dos acontecimentos pequenos e grandes e nas expectativas e realizações humanas. (Cst 35, §3)
Mãos que curam – A simplicidade, a bondade e a generosidade aproximam-nos das pessoas, com as quais gostamos de estar e com quem nos sentimos bem. À imagem das mãos de Cristo que curavam, somos chamados a cuidar dos homens e mulheres do nosso tempo. Este cuidado estende-se também à natureza, casa comum na qual nos movemos e existimos.
O lado aberto de Cristo é a ferida que nos desperta para os sofrimentos da humanidade. Porque nos descobrimos amados e curados por Deus, sentimo-nos próximos e sensíveis às dores e chagas de tantos homens e mulheres deste mundo.
Animando, assim, tudo o que somos, fazemos e sofremos pelo serviço do Evangelho, o nosso amor, pela participação na obra da reconciliação, cura a humanidade, reúne-a no Corpo de Cristo e consagra-a para Glória e Alegria de Deus. (Cst 25)
Pés que caminham – O caminho de Jesus é o nosso caminho. A memória que guardámos do Padre Dehon contém uma ligação íntima e forte a Jesus Cristo. Queremos viver o espírito que animava Jesus, queremos viver segundo o estilo de Jesus, queremos fazer de Jesus a referência da nossa vida.
A Eucaristia e o seu prolongamento na adoração são a via para este encontro com Jesus. Por elas, manifestamos a vontade de apressar a construção do Reino de Deus entre nós; por elas, assumimos e deixamos que ganhem forma no nosso corpo os traços do Mestre que queremos seguir.
Fiéis à escuta da Palavra e à fração do Pão, somos chamados a descobrir, cada vez mais, a Pessoa de Cristo e o mistério do seu Coração e a anunciar o seu amor, que excede todo o conhecimento. (Cst 17, §4)
Coração que se compadece – A vida do Padre Dehon foi um esforço constante em dar a conhecer o amor de Deus, em ajudar as pessoas a vivê-lo e a corresponder-lhe nas suas vidas.
O lado aberto de Jesus na cruz é a evocação deste amor que se dá totalmente, um amor que recria e transforma o homem, um amor que o torna semelhante a Deus. Aqui estamos no centro da espiritualidade que queremos viver e dar a conhecer; aqui estamos diante do único necessário para nós.
Queremos ser pessoas de coração, que irradiam e transmitem confiança e que são sinais de profunda humanidade. Por isso, a nossa espiritualidade revela-se mais luminosa no contacto próximo e nas obras de que dispomos, do que propriamente nas teorias e construções intelectuais que possamos apresentar.
Com São João, vemos no Lado aberto do Crucificado o sinal do amor que, na doação total de Si mesmo, recria o homem segundo Deus. Contemplando o Coração de Cristo, símbolo privilegiado desse amor, somos fortalecidos na nossa vocação. Com efeito, somos chamados a inserir-nos nesse movimento de amor redentor, doando-nos aos irmãos, com e como Cristo. Nisto conhecemos o amor: Ele deu a sua vida por nós e nós devemos também dar a vida pelos nossos irmãos. (Cst 21)
Ouvidos que escutam – Despertos para os clamores dos homens, na escuta da Palavra de Deus, oferecemos a nossa atenção e o nosso tempo. A disponibilidade, a proximidade e o serviço – que nos caracterizam – têm aqui o seu grau
mais elevado.
As necessidades da Igreja, as angústias da humanidade e o entusiasmo dos adolescentes e jovens são vozes que gostamos de ouvir e de prestar atenção.
Seremos, deste modo, discípulos do Padre Dehon, que teve sempre uma particular atenção para com os homens do seu tempo, sobretudo os mais pobres: aqueles a quem faltam recursos, razões de viver a esperança. Para nós, tal como para ele, o compromisso de pobreza pretende significar a entrega de toda a nossa vida ao serviço do Evangelho. (Cst 52)
Boca que anuncia e denuncia – Esta experiência de um amor de Deus, amor incondicional e sem limites, é o motor e o combustível para a nossa ação evangelizadora, apostólica e missionária.
O povo costuma dizer que “a boca fala da abundância do coração”. Daqui se segue que este amor de Deus é fonte de alegria, bom humor e simpatia no nosso dia a dia. Este mesmo amor de Deus é também o despertador, que nos acorda para as injustiças, os desprezos e os esquecimentos a que muitos são votados.
Não queremos apenas ser voz dos que não têm voz; queremos também ser voz contra os que têm demasiada voz. É assim que cantaremos a polifonia do amor oblativo.
Se tomarmos a sério o nosso compromisso de pobreza, estaremos dispostos a pôr tudo em comum entre nós e a ir ao encontro dos pobres e necessitados. A nossa predileção irá para aqueles que têm maior necessidade de ser considerados e amados e sentimo-nos todos solidários com os nossos irmãos que se consagram ao seu serviço. Esforçar-nos-emos por evitar qualquer forma de injustiça social. Só assim, e seguindo as diretrizes da Igreja, poderemos despertar as consciências para os dramas da miséria e para as exigências da justiça. (Cst 51)
O rosto luminoso – Os perseverantes encontros com Deus são instância de transformação da nossa própria vida. É aí que nos unimos ao amor de Cristo pelos homens; é aí que progredimos no conhecimento de Jesus; é também aí que nos despojamos do homem velho e embrutecido. Esta intimidade com Cristo faz-nos “descer do monte” transformados, transfigurados e capazes de ser este rosto do amor misericordioso de Deus, que acende a esperança no coração humano, tantas vezes atrofiado pela mesquinhez e rebeldia humana. É também aqui que se compreende a nossa vocação a sermos “profetas do amor e servidores da reconciliação”
(Cst 7). Os homens podem reconhecer que há algo em nós que lhes recorda o Pai e que lhes faz ter saudades dessa casa, que eles abandonaram precipitadamente.
Como Jesus gostava de Se entreter com o Pai, também nós reservaremos momentos de silêncio e de solidão para nos deixarmos renovar na intimidade com Cristo e nos unirmos ao seu amor pelos homens. (Cst 79, §1)
Em comum – Tudo o que acima foi dito adquire o seu sentido pleno numa comunhão de amigos e irmãos, que partilham este ideal e que se motivam permanentemente para ele.
A fraternidade é um testemunho forte e persuasivo, num mundo onde a solidão cresce continuamente e onde há muito espaço para que vença o medo, a tristeza e a dor. Esta abertura e interesse pelo outro leva-nos a criar comunidades alargadas, que se constituem como um ambiente familiar agradável e saudável.
Neste amor de Cristo encontramos a certeza de alcançar a fraternidade humana e a força de lutar por ela. (Cst 18, §2)
Em traços gerais, este é o “espírito” que nos anima e sustenta. Este é também o “espírito” que, nas palavras de S. Paulo, nos esforçamos por não apagar. Esta chama acesa em nossos corações é o garante da nossa missão e define igualmente o nosso lugar específico na Igreja. Não nos é pedido nada mais que isto: que mantenhamos acesa esta sarça ardente carismática descoberta pelo Padre Dehon.
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