O tempo da Esperança é Hoje
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09.12.2025 - 15:00:00 | 9 minutos de leitura

Há alguns meses, chegando de uma série de viagens ao Panamá, Guatemala e enfim Canadá, terminei os
relatórios de trabalho e fui visitar minha mãe. Na ocasião, estava também lá minha sobrinha mais velha,
universitária e muito observadora. Num dado momento ela me chamou à parte e disse: “Tio, estou preocupada com a
avó; pois em toda parte da varanda e na despensa ela guarda vidrinhos com sementes: tem sementes de flores e
mais ainda, de frutas”. Eu então perguntei: “Certo... Mas por que isso te preocupa?” – Ela ponderou: “Acho que a
avó está perdendo a noção do tempo; ela já tem 82 anos e quando plantar essas sementes, não vai ver os frutos...
Por que ela insiste em plantar?” – Eu refleti um pouco; afinal ela tinha certa razão. Mas não toda a razão. Foi
dali que surgiu uma conversa bem interessante sobre sementes, tempo para plantar e colher, entre uma geração e
outra. Na verdade, meio sem querer, minha sobrinha e minha mãe me oportunizaram uma aula sobre esperança! E tudo
veio daquela conversa imprevista, no fim da manhã, entre flores, árvores e sementes.
“... gratidão e generosidade são virtudes da esperança e do esperançar.”
Tendo refletido um instante, eu respondi à minha sobrinha: “Tens razão quanto ao tempo das sementes:
essas, que a avó guardou, vieram de muito tempo atrás, da geração anterior que plantou as árvores, que as
cultivou aqui no terreno ao redor da casa. E quando a avó plantar, será a tua geração que vai colher e se
beneficiar dos frutos. Mas isso só acontece porque a avó – agora, no tempo dela – reconhece o que veio antes e
cuida para que a próxima geração tenha bons frutos. Amanhã, tu vais saborear os frutos que a avó plantou hoje; e
caberá a ti, então, cuidar para que a próxima geração continue tendo árvores, frutas e sementes”. De fato,
nenhuma pessoa – e nenhuma geração – garante por si mesma o próprio futuro, se outros – no seu tempo – não
tenham feito escolhas certas, com a gratidão por quem plantou antes e a generosidade de cultivar, deixando o
legado para a geração seguinte. Sim: gratidão e generosidade são virtudes da esperança e do esperançar.
“Deus plantou um jardim; e ali pôs o ser humano para o guardar e cultivar.” (Gn 2,15)
Não se trata apenas da esperança cronológica, do cálculo de dias e meses, com planos de metas para o
futuro. Tem algo mais. Em primeiro lugar, a gratidão ao reconhecer que as coisas mais valiosas da vida não são
mero produto; mas dádiva. Produzimos muita coisa, mas os bens essenciais – como as sementes que minha mãe guarda
– são dádivas da natureza, ou melhor, do Criador, que nos confiou cuidar da Terra: “Deus plantou um jardim; e
ali pôs o ser humano para o guardar e cultivar” (Gn 2, 15). Quem esquece a dádiva, além de não agradecer, se
ilude achando que tudo na vida é um produto, uma conquista individual, de méritos exclusivos. Por isso mesmo,
quando faltam garantias, essa pessoa perde a esperança porque seus cálculos são estreitos e não consegue
visualizar o futuro nas escolhas do presente. Resultado: essa pessoa fica nostálgica quanto ao passado e ansiosa
quanto ao futuro; a esperança encolhe e a depressão aumenta. Lamentável...
Por isso, alertei minha sobrinha sobre o tempo das gerações, a gratidão por quem veio antes e o
discernimento para tomar decisões hoje – com discernimento e generosidade. É assim que construímos o futuro,
vivendo cada dia com esperança. Notemos bem: o tempo do futuro é hoje. Sem adiar demais a vida e o que importa
para viver. Seja um propósito, uma decisão, um cuidado... Vivemos hoje o futuro que já se anuncia em nossos
valores, afetos e escolhas. “Por isso, a avó guarda sementes e as planta, no hoje dela, passando para frente a
dádiva que ela mesma recebeu” – disse eu para minha sobrinha.
“
... eu, que olho, olho, olho para essas sementes e sabes o que eu vejo? –
Vejo o laranjal inteiro!”
Nisso, minha mãe chegou com umas sementes na mão. “Marcial, olha aqui” – ela disse. Eu olhei bem e
respondi: “Ah sim, mãe: são sementes de laranja”. Mas ela retrucou: “Tu falas isso porque és tanso (lerdo, no
falar açoriano): tem que olhar melhor, como eu, que olho, olho, olho para essas sementes e sabes o que eu vejo? Vejo o laranjal inteiro!”. Nisso, minha sobrinha e eu nos surpreendemos! Porque, justamente, olhar as
sementes de laranja e já ver, ali na palma da mão, o laranjal, é uma ótima definição de esperança. Porque, como
minha mãe acrescentou... “pra chegar lá, tem que plantar!”. Assim é a esperança enquanto virtude: tem que
reconhecer na semente a dádiva do laranjal; e plantar hoje, confiando de uma geração à outra o sabor e o
nutrimento das frutas.
“Senhor, sacia-nos de manhã com a tua graça, para exultarmos de alegria pela vida
afora! Ensina-nos a bem contar os nossos dias; e assim teremos um coração sábio!”
Mais do que um produto calculado, o futuro que esperamos brota do que decidimos hoje, quando vivemos
esperançados: agradecidos pelas dádivas recebidas, cuidando sobretudo de nossas relações, cuidando uns com os
outros; porque são as pessoas que fazem da vida uma dádiva. Há que ser gratos pelas dádivas grandes e pequenas
do cotidiano, pelas quais as pessoas plantam o nosso futuro. E nós, plantamos com elas. Afinal, a esperança não
é uma competência individual, mas sim comunitária, solidária, entre muita gente, de muitas gerações. Minha mãe,
eu e minha sobrinha representamos três gerações; mas o tempo do nosso futuro foi aquele hoje da nossa conversa,
que se esticou até o hoje da tua leitura neste artigo. Convém rezarmos juntos com o salmista: “Senhor, sacia-nos
de manhã com a tua graça, para exultarmos de alegria pela vida afora! Ensina-nos a bem contar os nossos dias; e
assim teremos um coração sábio!” (Sl 90, 12.14). Pois o tempo da esperança é hoje.
In Corde Iesu!
Fonte: P. Marcial Maçaneiro, SCJ
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