Padre Dehon na Sexta-feira Santa da Paixão do Senhor

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03.04.2026 - 21:21:00 | 13 minutos de leitura

Padre Dehon na Sexta-feira Santa da Paixão do Senhor

No dia 3 de abril de 2026, a Igreja celebra o mistério da Paixão e Morte de Cristo. No centro do Tríduo Pascal, Jesus entrega-se como oferta ao Pai em favor da humanidade. Muitos santos meditaram sobre esse mistério e o viveram imitando Jesus. Padre Dehon também procurou viver e anunciar esse mistério. Para ele e para a Igreja, o mistério da Cruz não foi causado pelos soldados ou pelos sofrimentos de Cristo, mas por Seu amor ao Pai, que transborda em toda a humanidade como Salvação.

“Nos mistérios da Paixão, Jesus Cristo é realmente o livro escrito por fora e por dentro. Quais são as letras que vemos impressas nesse livro? Apenas estas: Amor. Os chicotes, os espinhos, os cravos escreveram-nas em caracteres de sangue sobre a sua carne divina; mas não nos contentemos em ler e em admirar exteriormente esta escritura divina; penetremos até ao Coração, e veremos uma maravilha bem maior: o amor inesgotável, que não tem em conta o que sofre, e se dá sem se cansar”.[1]

Se se contemplar, olhando apenas por aspectos humanos, o sofrimento de Cristo na Cruz, pode-se pensar: “Jesus não sofreu mais do que muitas pessoas que vieram após ele...”. No entanto, Jesus não é apenas humano, mas também divino. E, em condição divina, ele não usurpou a dignidade que tinha, mas viveu como homem até a morte, e morte humilhante de uma Cruz.[2] Só o fato de o Filho Unigênito nascer homem, assumir uma condição mortal, já é uma grande humilhação para si. No entanto, não só experimentou a morte, como sofreu os suplícios da morte humilhante da Cruz, morrendo como um homem malfeitor, sem ser malfeitor e sendo Deus. Podia acabar com o seu sofrimento, o que fica alegado claramente no Evangelho da Paixão de Cristo, segundo São Mateus, narrado no Domingo de Ramos[3], no dia 29 de março: “ou pensas que eu não poderia recorrer ao meu Pai e ele me mandaria logo mais de doze legiões de anjos?” (Mt 26,53);[4] mas não o fez e viveu em tudo, menos no pecado, a condição humana.

Padre Dehon, ainda, afirma: 
“A paixão do Salvador é a obra do seu amor. [...] Palavras são impotentes para descrever os sofrimentos da Paixão do nosso Salvador. Não houve uma palavra, um passo, um detalhe deste drama que não tenha atingido os sentimentos mais profundos do seu Coração”.[5]

Uma pessoa, ainda que muito boa e bem-intencionada, poderia dar a vida por alguém que a ama, por sua família ou por outra pessoa muito boa. Porém, Jesus não morreu por pessoas necessariamente boas, nem apenas por sua família, senão por amor ao Pai e amor por toda a humanidade que não O busca, não O encontra, não O quer; pessoas que são indiferentes a tudo o que Ele passou pela salvação delas e que, ainda, fazem guerra entre si, não se amam e fazem de outras coisas seus deuses.[6]

O centro do mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo é, para o Padre Dehon, o Coração traspassado de Jesus, donde brotou sangue e água, e donde brota toda a vida da Igreja. Padre Dehon chega a comentar sobre a lança que abriu o Divino Coração: “Eu tenho inveja da lança que abriu o vosso Coração, porque ela penetrou até ao centro do amor; eu queria que o meu coração fosse essa lança para nunca mais sair do vosso”.[7] Ademais, Dehon ainda escreve:

“A abertura do Coração de Jesus é o mistério dos mistérios. [...] Vós quisestes, Senhor, que o vosso lado fosse aberto para que eu leia nesta ferida as lições do vosso amor e para que eu tenha ali um refúgio onde o meu coração possa sempre reanimar os seus sentimentos de amor”.[8]

Essas lições do amor de Cristo, as quais Padre Dehon sentia-se convidado a ler nos sofrimentos d’Ele, são um convite de Deus a todo dehoniano: o de também morrer não apenas em como já acontece naturalmente, mas morrer para si, para sua vontade, a fim de amar e realizar a vontade de Deus. Porque, amando Sua vontade, deixa-se que Ele realize também Sua bondade no mundo e na vida de todo dehoniano.

Isso significa, antes de tudo, não amar o sofrimento por si só, não realizar algo por si só; não “fazer apenas por fazer”. Significa amar ao Pai; significa viver com a Cruz pelo Pai: contemplando-a, amando-a e alegrando-se com ela quando se pode ofertar ao Pai. Dehon escreve sobre isso: "Suas disposições serão perfeitas se pensarem que não amam o sofrimento pelo sofrimento, nem a cruz pela cruz, mas que amam o Sagrado Coração de Jesus que quis dar-lhes este ou aquele sofrimento, esta ou aquela cruz".[9] Assim, cada pessoa não agirá por si mesma, mas por amor ao Pai. Como o Fundador, ainda, afirma: “Não há que buscar no Evangelho outra coisa senão o amor de Jesus, desde a sua Encarnação até à sua morte. O Coração de Jesus é todo o Evangelho”.[10]

Portanto, a Sexta-Feira Santa para cada dehoniano é um convite a contemplar e expressar seu amor ao Pai em favor de toda a humanidade; ter esse Deus como objeto de seu amor; ter a certeza de que Deus ama tanto a cada um, que entregou seu Filho Unigênito para salvar todo aquele que se aproxima de Seu Divino Coração. Assim, em cada celebração, em cada ato de evangelização, que seja buscado o Coração de Jesus, que tanto amou o Pai e que tanto amou o mundo.

In Corde Iesu.


Referências

[1] Coroas de Amor (CAM), 305s.
[2] Cf. Fl 2, 6-11.
[3] Mt 26,14-27,66.
[4] CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Igreja em Oração: liturgia diária. Disponível em: https://liturgiadiaria.edicoescnbb.com.br/app/user/user/UserView.php. Acesso em: 4 abr. 2026.
[5] Meditações sobre a Ladainha do Sagrado Coração
[6] Cf. Rm 5,8-9.
[7] Couronnes d'Amour (Coroas de Amor), Vol I
[8] Estudos sobre o Sagrado Coração
[9] Coroas de Amor (CAM) 2/142.
[10] Citações Espirituais.

Fonte: Fr. Alexandre Johann
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